Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Arejamentos

«-Ora a idade! A idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.
- Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos anos, a mulher parece ter a idade que tem».
(Júlio Dinis, Uma família inglesa).

Por «quarenta e tantos anos» entenda-se, naturalmente, quarenta anos mais quarenta. O século e meio que nos separa da era dinisina trouxe à mulher, entre outros relevantes benefícios, o de «ter a idade que parece ter» - ou de conseguir manipular eficazmente os sinais do tempo - até muito para além das suas quarta e quinta décadas. Mas é verdade que estou a reler Júlio Dinis. Um autor que nunca me seduziu, mas de cuja obra optimista senti o apelo nesta quadra sombria que vivemos, de empobrecimentos vários, económicos e morais. De repente, apeteceu-me percorrer o Portugal das aldeias que Júlio Dinis desenha com a «pena molhada no ideal» (segundo palavras de Eça); apeteceu-me vibrar, nesse percurso, com o entusiasmo regenerador de um país que, no terceiro quartel oitocentista, conheceu o desenvolvimento e o progresso, depois de um período negro de lutas civis; apeteceu-me, enfim, ler histórias em que tudo está bem porque acaba bem. Mesmo se não consigo identificar-me com as suas heroínas; mesmo se descubro nelas como a virtude feminina pode ser tão... tão... aborrecida?...

18 comentários:

ana v. disse...

Ah, Luísa, nisto é que não estamos mesmo de acordo! Júlio Dinis não me arranca mais do que um longo bocejo, e para isso já me basta o parlamento (que, apesar de tudo, sempre é mais agitado por estes dias)...
Mas espero que se divirta, claro!
:-)

ana disse...

É um pouco difícil ler Júlio Dinis mas não é de todo desinteressante. Gostei dos "Serões na Província", "Uma Família Inglesa" e de "Fidalgos da Casa Mourisca". Já apanhei um ou outro poema que gostei.

Gostei do seu texto porque neste momento o que precisamos é alegria, alegria de viver e não a tristeza que se sente pelo ar.
A melancolia é um sentimento que quero expulsar...mas está difícil...!
Boa tarde e obrigada pelas palavras tão aliciantes que deixou no meu canto. Deram-me que pensar...:))

Luísa disse...

É uma pureza de costumes um bocadinho chata, reconheço, Ana. Mas estava a precisar de um certo banho de inocência (incluindo o que traz de memórias da minha infância, ou adolescência). ;-D

Ana, é também o optimismo, que se pressente, de um país que arrancava para uma fase de grande desenvolvimento. Sempre fomos pobres, aceito, (designadamente porque nunca soubemos gerir os pontuais enriquecimentos). Mas entre a nossa pobreza estrutural e a miséria conjuntural por que estamos a passar há diferenças abissais. :-)

cristina ribeiro disse...

Divertiu-me o episódio da Tia Doroteia a intrometer-se na leitura de Henrique de Souselas; se procurarmos, Luísa :)

manuel menezes disse...

Aproveitando a boleia das suas leituras, Luisa, ajude-me a situar, para não ter que reler todo o livro, onde se situa o episódio do "nosso" João Semana lancetando o ...., enfim, o "assento" de uma das três irmãs com quem regularmente jogava às cartas e os rocambolescos estratagemas para que nunca soubesse qual delas era :-)
E corrija-me se deliro

ana disse...

Luísa,
Muito obrigada pelas palavras que deixou na minha janela. Gosto muito dos seus pensamentos, das suas ideias, têm um sabor sensato, lúcido e ao mesmo tempo são irreverentes, ou seja não são acomodações.
Fico feliz por a ter descoberto. :)

Bom fim de Domingo!:))

Luísa disse...

Cristina, ainda não cheguei à Morgadinha. E estou, em geral, muito esquecida das leituras dinisinas que fiz, vai para uns quarenta anos. Mas não estou a desgostar de reler «Uma família inglesa»: para além de tudo o que entedia ligeiramente, tem cenas e personagens muito bem apanhadas. ;-)

Também não lhe sei dizer, Manuel. Também ainda não cheguei às Pupilas. Mas quando lá chegar – se chegar… - darei imediatamente nota do facto. ;-D

Ana, :-)))

Flip disse...

Luísa,
se essas releituras lhe elevam o moral e a recolocam na crista da onda, siga, siga em frente...e a mulher é bonita em todas as idades, eu digo-o porque sim
:-)

ana disse...

Luísa,
Espero que o voltar da página seja uma pausa repousante. Fazem falta os seus textos sempre de uma originalidade e conteúdos pertinentes,
Bom fim-de-semana!:)

aguasroubadas disse...

Precisamos mesmo arejar um pouco, mesmo com Júlio Dinis, ou as tragédias de Camilo. Gostei do seu texto.Vou continuar a visitar este lugar.

jaime disse...

no japão as pessoas (homens ou mulheres) sentem-se lisongeadas quando lhes atribuímos mais anos do que na verdade têm

por isso...

papoila disse...

Luisa,
Passo por aqui só para dizer:
ESTE BLOG FAZ-ME FALTA!!!
Os dias a passar...e os posts a escassear :))))
xx

Luísa disse...

Flip, ;-)))

Ana, o virar da página não foi pausa, mas mudança real de «página» (ou de morada). Salvo casos de força maior, não consigo estar sem blogar muito tempo. Os dias mais inspirados, de resto, são geralmente os dias seguintes àqueles em que decidi fazer uma pausa. ;-D

Obrigada, Águas Roubadas. Os clássicos trazem-me sempre muito ar puro e fresco. ;-)))

É porque a idade, para certas sociedades equilibradas e sábias, representa equilíbrio e sabedoria, Jaime. :-)

Os posts aqui acabaram, Papoila. Era tempo de me mudar e mudei-me. ;-D
P.S.: Mas fico muito lisonjeada com as suas palavras. :-)))))

Rita Roquette de Vasconcellos disse...

Voltei
Vim espreitar ....
tarde demais?

Não sei se tenho coragem de dizer ao Walter
:-)

bj

Rita Roquette de Vasconcellos disse...

Voltei
Vim espreitar ....
tarde demais?

Não sei se tenho coragem de dizer ao Walter
:-)

bj

ana disse...

Luísa,
Já vi "The Lady and the Unicorn" e fiquei com curiosidade. Estive mesmo para o comprar mas depois pensei: ai a minha pilha de livros!!
Vou seguir o seu conselho e vou lê-lo.
Muito obrigada e volte depressa!:)

bacouca disse...

Luisa,
Voltei minha querida! Os seus textos são sempre algo que me põe a pensar e agora, mais do que nunca, tenho que ocupar os meus pensamentos.
Uma vez mais muito obrigado pelo seu apoio.
Um beijo

Anónimo disse...

volte,que faz muita falta,sobretudo a quem mal teve tempo de a conhecer.

Assin.: Luísa







Agora também no Corta-fitas.





Com os meus agradecimentos: