Tenho, naturalmente, a minha experiência de bichas. E porque não gosto de esperar - como presumo que ninguém goste - não posso considerá-la uma experiência interessante. A vida, porém, nem sempre contemporiza com os nossos interesses, e decidiu alargar-me a experiência a âmbitos diversos do tráfego automóvel e da esporádica renovação de BI’s e passaportes. Eis-me, portanto, obrigada a pontuar em várias bichas. Resta-me optar por uma de duas atitudes: ou embezerrar na impaciência e no pessimismo; ou tentar extrair da conjuntura algum proveito. Esta segunda opção é, sem dúvida, a mais inteligente, mas requer uma análise prévia do fenómeno, incluindo a sua tipificação – porque bichas há muitas… - e a definição dos paliativos adequados. Ataquemos então o problema. Quer assumam o formato de fila, quer de amontoado de gente ordenada por número de senha, as bicham encaixam, invariavelmente, em dois tipos fundamentais: as bichas de grande mobilidade e as bichas de pequena mobilidade. As primeiras avançam rapidamente e não permitem o desenvolvimento de outra actividade que não seja a atenção ao seu movimento. Consolam-nos, porém, com a fé num despacho breve (mesmo quando a segunda condição de brevidade, que é a reduzida dimensão da bicha que nos antecede, não se verifica). As segundas não avançam, ou avançam imperceptivelmente, e não há fé que resista ao seu ritmo (mesmo quando detemos posições dianteiras). São, receio, as bichas que me estão reservadas. É certo que permitem desenvolver actividades múltiplas, desde a leitura de livros e jornais, até à observação do meio ambiente e, designadamente, das pessoas que connosco aguardam a vez e das que as atendem (se é caso de atendimento). Uma bicha de pequena mobilidade é um cadinho de emoções. Raros são os elementos que se previnem com o que possa alheá-los da envolvente. De um modo geral, todos contam os minutos que passam. E há os que gemem e lastimam o tempo perdido; há os que se insurgem contra a criatura, a instituição, o governo, o país, o continente, o planeta, a galáxia ou o universo responsável pela lentidão das coisas; há os que andam para trás e para a frente, ao jeito da fera enjaulada; há os que procuram, com olhos ansiosos, cumplicidades para o crescendo da sua irritação; há os que vão reclamar; há os que não vão, conformados com a inelutável decadência civilizacional; há os que, à coca dos «xicos-espertos», que abundam em semelhantes quadros, se assanham contra o pobre que só quer uma informação; há os que aproveitam o ajuntamento para soltar uma língua que a solidão costuma emparedar-lhes entre os dentes; há os que trocam animados testemunhos de desgraça; há os que rompem o bruaá, feito de tensão e queixas surdas, com altissonantes respostas aos telemóveis… Pois não é que ainda não entrei na bicha e já estou a achar graça!
Há 1 hora
13 comentários:
Como sempre adorei o texto e mesmo correndo o risco de me repetir, não consigo calar a minha admiração pelas suas fotografias! A "Graça" está uma beleza!
A propósito das bichas, eu sou tipo Fera Enjaulada, mas não devo ter aspecto tenebroso porque há sempre alguém que me escolhe para dar dois dedos de conversa....
xx
Título enganador este, Luísa!
Então e as mais incomodativas de todas as bichas?
A bicha solitária?
A bicha de rabear?
A bicha das paradas Gay?
Está muito incompleto este seu post! tsss, tssss
O que de interessante a Luísa escreve sobre uma coisa tão prosaica e chata como uma bicha...
Tendo saído de Angola numa caravana de mais de três mil carros, aprendi a saber esperar numa fila irritante de anda-pára. Depois, nos campos de refugiados, foi a espera nas bichas para mostrar as vacinas, para ir buscar a sopa, para receber um cobertor, etc.,etc.. Isto tudo fez-me saber ser paciente e, quando é preciso ir a qualquer sítio, onde sei que vou enfrentar uma bicha, levo um livro para ler. E assim não custa tanto esperar, quer seja através de um número quer na fila propriamente dita.
O Pedro Barbosa Pinto tem razão, Luísa. Vou considerar incompleto (ou inacabado) este post... ;-)
(eheheheh)
p.s. - não gosto de bichas. dão-me uma sensação de perda de tempo e, ao contrário da Luísa, não tenho arte e engenho para aproveitar.
Pois eu fartei-me de rir com este post.
Ah e eu gosto muito da sua escrita!
Houve uma fase em Moçambique durante a qual a bicha era uma instituição nacional. Surpreendentemente, a bicha era considerada, também, uma vitória do povo e da revolução. Os cidadãos nacionais, pobres mas sempre sorridentes, bichavam por qualquer coisa. Se viam uma bicha, bichavam (o verbo bichar passou a pertencer ao léxico moçambicano). Os cidadãos estrangeiros não bichavam porque tinham dinheiro para contratar bicheiros para bichar fosse para o que fosse que aperecesse no mercado. Habitualmente era carapau congelado e pão. Havia ainda um sector que eu chamaria de PRIMÁRIO (o secundário era constituído por aqueles que tinham poder económico para contratar bicheiros e o terciário seriam os bicheiros propriamente ditos), constituído por aqueles que tinham o privilégio de enviar semanalmente um motorista à Áfrca do Sul comprar bens de luxo como o sabão, a pasta de dentes, papel higiénico, fósforos, arroz, farinha e óleos, frescos variados e outras mordomias que o socialismo científico achou por bem retirar do alcance dos cidadãos que, enquanto bichavam, teorizavam (para usar um termo que a Luíss usa com frequência) sobre as bichas, bicheiros e o acto de bichar. Aqui chegados ocorre-me a relativa polémica instalada pelos brasileiros residentes em Maputo. Achavam eles e insistiam que as bichas eram filas e os bicheiros, fileiros. Muitas vees mantive discussões pretensamente académicas com amigos brasileiros a quem tive de explicar que fila era um alinhamento de coisas em inércia em repouso, como uma fila de poltronas de cinema, por exemplo, e uma bicha era uma fila de pessoas ou coisas com uma dinâmica de movimento, como uma bicha de gente a bichar para os carapaus. Acho que nunca consegui convencer realmente os meus amigos brasileiros mas confortou-me verificar que o termo vingou em Moçambique e ainda hoje, mesmo com muitos brasileiros residentes, se diz bicha, bicheiro, bichar (já bichanar tem outro sentido que não vem agora a propósito) :))).
Para meu desencanto, vim para Portugal de vez... apenas para verificar que as filas ganharam em toda a linha e que as bichas adquiriram mesnmo o sentido e significado da «bicha» brasileira. Confesso que ainda esbocei algum esforço no sentido de manter a sadia existência do termo no seu significado real, mas declaro-me vencido. Os repórteres de trânsito venceram em toda a linha.
Aqui fica esta reflexão sobre bichas depois de ler o seu texto - não sem ainda lhe manifestar o agrado por ver alguém que chama bicha às bichas, porque uma bicha é uma bicha e uma fila é uma fila. Uma fila de bichas poderá ser outra coisa que me parece não se contextualizar no post, mas não completamente impossível de «enxergar» :)))
Luísa, de que importa a escrita enrolada para quem tudo diz com imagem e música? Há lá melhor forma de escrever! Todos os dias me surpreende, este Nocturno.
Obrigada, Papoila. Também sou do seu género: não gosto de estar sentada muito tempo e, mesmo a ler, faço o vaivém, se o espaço o permite. Às vezes, é a melhor forma de escapar àqueles olhares que nos sondam para o motim. ;-D
Pedro, o título só é enganador para cabecinhas um tudo nada maliciosas. ;-))) De resto, as outras bichas que refere (salvo, talvez, a de rabear) não suportam senão análises muito sérias, científicas, por assim dizer, e de elevada especialidade. :-D
Cristininha, interessante, ponto e vírgula… ;-)))
É verdade, Dreamer. Quem passa por bichas dessas, em que se joga a sobrevivência, está preparada, como ninguém, para ser paciente nas outras, as bichazinhas domésticas, onde me parece que se ferve em muito pouca água, por insignificâncias… :-)
Pois eu julgava que não, Mike, que tinha esgotado o assunto. Mas lendo a Dreamer e o Espumante, vejo agora que apenas toquei nele pela rama – isto sem falar noutras acepções da palavra… :-)))
Se eu esbocei uma «teoria», o Nelson escreveu um tratado. Gostei imenso de o ler. A única situação de que me lembro, em Portugal, que incluía, provavelmente, todas essas figuras e, de certo modo, «sectores», era o pagamento de impostos nos dois dias do fim do prazo, no tempo em que os computadores ainda não interferiam no processo: também havia bichas que não acabavam, também havia bicheiros, também havia mandantes de bicheiros, e desconfio de que também havia os tais primários, que ou conseguiam não pagar, ou pagavam por circuitos de favor. A diferença fundamental é que estas bichas eram antinaturais, porque não se faziam para obter ou comprar o que quer que fosse, mas apenas para pagar. :-)))
Francis, :-)
Eu tenho a dizer que gosto muito da sua escrita, Luísa! :-D
E quero acrescentar que gosto muito do bule (que cor lindíssima...) e da chávena ali de cima :-)
Cá por mim continuo a usar bicha em vez de fila, pelo significado dúbio que a palavra arrasta por via de influência brasileira... Cheira-me que a Luisa não resistiu à provocação, como se vê do título e "glorioso" início de texto, com que logo me desmanchei a rir :-D
E eu tenho a dizer que gosto muito de sentir a Fugi aí, pronta para o que der e vier, há mais de... quantos anos? :-)))
Manuel, adivinhou. A provocação não é alheia à terminologia utilizada. Em todo o caso, para mim, bicha sempre foi bicha e nunca o designativo de bicho efeminado. ;-D
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