(Nos Jardins da Gulbenkian...)
Há dias, pessoa anónima comentou um texto que deixei noutra sede com as palavras: «não gosto da sua escrita». Lamento o extravio desse comentário (de que apenas tomei conhecimento por email), porque teria podido responder-lhe: «eu também não». Ninguém, em causa própria, é fiável nos seus juízos, mas é verdade que pressinto, na minha escrita, uma complexidade, um enrolamento de raciocínio e um «rebuscamento» de forma, que nunca, provavelmente, fizeram moda, e são claramente postergados pelos cânones vigentes. Mas já desisti de lutar por uma simplicidade, que me seduz, mas só me embaraçaria o prazer. É que o meu prazer na escrita não é, realmente, a busca ou a cultura de uma estética literária. É-o, sim, comunicar reflectidamente; expor uma ideia ou transmitir um desabafo, com tempo para trabalhar subtilezas de ironia ou de provocação. E é-o também ginasticar o espírito na contínua aprendizagem de uma língua, a minha língua. Aprendizagem que me sugere um exercício de geometria, de que conto que extraia algum benefício esta cabeça mal assente em estruturas demasiado assimétricas.