Era – e presumo que ainda seja - educadora de infância. Estava na aula com as suas crianças, quando irrompeu portas adentro um homem armado de revólver, má catadura e evidente desconexão mental, que as sequestrou, a ela e à pequenada, em nome de não sei que insanas pretensões. A escola foi imediatamente cercada pelas forças especiais e pelos negociadores da ordem. O calvário, ainda assim, durou uma infinidade de horas, creio que dias, porque o homem se escudava nas ameaças contra a vida dos reféns. A mulher foi autorizada a sair, para intermediar as conversações sobre a alimentação do grupo e a libertação do homem, mas abreviou a saída. E mantendo-se junto dos seus pupilos, tratou de organizar mil brincadeiras, simulações e teatrinhos (o homem representando as figuras familiares, inscritas na «mitologia» infantil, do lobo mau, do dragão ou do gigante) que os distraíssem e divertissem, mas, sobretudo, alheassem do drama que protagonizavam. Avisada, a páginas tantas, da iminência do ataque final, inventou um jogo de tartarugas, que conduziu a miudagem para debaixo das mesas, pondo-a ao abrigo de eventuais tiroteios e balas perdidas. E a incursão das forças especiais - que, em segundos, neutralizaram o agressor – encerrou, com um desenlace feliz, um caso que custara a tal infinidade de horas (dias!) de tensão, de medo, de angústias e raivas aos pais das crianças, aos familiares, aos amigos, ao mundo inteiro que as acompanhara pelos noticiários. Só para elas, e graças à sua educadora, tinham sido horas de puro entretenimento; horas que lhes não deixavam nenhuma dessas marcas que os grandes sustos costumam imprimir na consciência, para tormenta futura. Foi em França, há meia dúzia de anos; ou num tempo de que os novos padrões de sobrevivência já tinham erradicado os valores inspiradores do heroísmo. A educadora de infância foi heroína num tempo adverso à condição; é a minha heroína. Não lhe recordo o nome, nem houve pesquisa na net que mo desvendasse, mas o seu exemplo de generosidade, de sangue-frio e de ousadia criativa perduram na minha e espero que noutras memórias. Resta-nos, aos que nos lembramos, passar palavra aos que vierem a seguir a nós. Porque há nomes e gestos que, porque não entram na História dos poderosos, têm de entrar na Lenda dos bravos.
Há 1 dia
7 comentários:
Gostei muito de ler este post, Realmente, hoje em dia não se dá valor a gestos tão heróicos. Vou contar a história à minha neta.
Luísa,
essa merece entrar para a História dos Bravos!
bjs
Não conhecia a história. Inevitavelmente, lembrei-me de "A vida é bela". Tem razão, Luísa, a sua professora é uma verdadeira heroína.
Sabe, Luísa, eu penso que temos desses heróis todos os dias, a todas as horas. E cada vez mais, num mundo a caminhar para o egoismo e para o individualismo.
Só que parece já não interessarem às notícias...
Sangue frio, mas coração quente.
Exemplar, Luísa.
Impressionante, com a minha filha no infantário, nem imagino pelo que passaram aqueles Pais, mas sobretudo pelo que passou a educadora. parabéns pelo post.
Dreamer, também acho que não. A professora recebeu uma condecoração do Estado francês, mas o seu exemplo já se perdeu nas brumas da nossa curta memória humana. :-S
Ora bem, Dulce! :-)))
Ana, julgo que o filme é posterior ao caso. Não tenho a certeza, não consegui encontrar nenhuma informação na net. Mas tenho ideia de ter pensado, quando o filme saiu, na hipótese de se ter inspirado no caso da professora, que foi muito noticiado na altura. :-)
Patti, concordo consigo. Há, provavelmente, muito mais gente com este espírito de abnegação do que os tempos nos levam a supor. Mas, infelizmente, também deve haver muito mais gente sem ele. :-S
Cristina, foi um caso marcante e comovente. Não compreendo como não deixou rasto. :-S
Fred, a minha filha também era pequena, na altura, e essa é talvez a razão porque apreciei tanto aquela heroicidade. Obrigada pela sua visita e pelo seu comentário. :-)))
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