Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

A corte, a mulher, o marido e o sonho (ou resposta de uma pós-balzaquiana a uma provocação)

Un jeune homme pauvre peut seul savoir ce qu’une passion côute en voitures, en gants, en habits, linge, etc. Si l’amour reste un peu trop de temps platonique, il devient ruineux. (Balzac, La Peau de chagrin).

A perspectiva de Balzac dos custos de um namoro na sua primeira fase é deliciosamente reveladora. Um homem que corteja é um vendedor, e quanto mais desinteressada se lhe afigura a cliente, maior a tentação de adoptar as estratégias sofisticadas e dispendiosas a que as casas comerciais, os prestadores de serviços e particularmente os bancos recorrem para escoar os seus produtos. Na circunstância, o produto é o próprio homem e o seu escoamento consumado no momento em que a cliente cede à troca do platonismo – ou da verborreia promocional – pela experimentação ou teste. Esta segunda fase implicava, no passado, um compromisso solene de compra, razão por que a bolsa do cortejador podia então folgar. Hoje, não há compromissos de compra, mas também é duvidoso que haja verdadeiras intenções de venda. Hoje, é frequente que a promoção vise apenas a colocação do produto num mercado aberto e consumista, em que a alta rotação permite apreciáveis contenções de despesas. De uma maneira ou de outra, um homem que corteja é um homem que mente. E é por isso que, quando a mulher abre os olhos, finda a campanha e contratada a aquisição, tem, geralmente, alguns motivos para pasmar. E pasmar de um pasmo que nem sempre é feliz: em matéria amorosa, nenhum produto vem munido de certificado de qualidade ou prazo de garantia. Restam à mulher, a que a emancipação descobriu os segredos do negócio, duas opções: ou deitar fora o produto, com o encargo pesado de muitas mágoas; ou servir-se das suas potencialidades, quando o balanço demonstra que compensam os defeitos. Em qualquer caso, não lhe convém descurar a panaceia que é gozar os romantismos «démodés» no paraíso dos sonhos, onde é sabido que as coisas reais, incluindo maridos (bons ou maus), não têm direito de entrada.

10 comentários:

Leonor disse...

Tão realista, Luisa. Sim, o homem que corteja é um homem que mente. Nos momentos mais inspirados pode ser um poeta, mas isso não lhe retira o fingimento, pelo contrário, como sabemos.
E imagine que me lembrei de "A rosa purpura do Cairo". Talvez pela pela referência a esse reduto dos sonhos, vedado à realidade, ao quotidiano.

Luísa disse...

Leonor, é a minha resposta ao «revoltante» realismo de Balzac. ;-)))))

papoila disse...

Luisa,
Achei graça a essa frase do"homem que corteja é um homem que mente".
Hoje em dia que ambos desenvolveram a arte de bem cortejar e portanto de mentir, todos puxam dos cartões e gastam alegremente o que têm e não têm e julgam viver no Paraíso!
xx

ana disse...

Não sei o que hei-de dizer...
Infelizmente, talvez seja a verdade... mas então que ela fique longe.

Boa noite! :)

ana v. disse...

Cáustico e certeiro, Luísa. Mas acho que as mulheres não se podem queixar muito, mesmo assim: o produto que compram é quase sempre relativamente simples de manusear, depois de desmontada a falsa sofisticação da embalagem. Já eles, além de um produto que não vem munido de certificado de qualidade ou prazo de garantia, não recebem também um livro de instruções que seria essencial para saberem como funciona, e vêm-se a braços com um quebra-cabeças que nunca tinham imaginado sair-lhes na rifa...
;-)

Luísa disse...

Papoila, hoje é capaz de se mentir menos. Ou mentem ambos, o que equilibra as coisas. Apesar de tudo, acho que a mulher é geralmente mais genuína na expressão das suas emoções, mesmo que a evolução tenha feito dela uma criatura menos constante ou menos fiel. ;-D

É a verdade, Ana, mas não é toda a verdade. A mulher também tende a não dar logo a conhecer as suas piores facetas. No final, obtém-se, muitas vezes, uma situação de equilíbrio que, com o tempo, pode consolidar-se na criação de fortíssimas afinidades. O amor só se começa a construir, acho eu, depois de ultrapassadas as fases dos enganos e dos desenganos. :-)))

Tem toda a razão, Ana. Os homens estão sempre a queixar-se dos cansativos – porque insolúveis – enigmas da feminilidade, coisa que as mulheres não fazem, porque desde há muito que têm desvendados os «enigmas» da masculinidade. ;-D

mike disse...

Hum... posso comentar? hum... acho que sim... os maridos (bons ou maus) é que não têm direito de entrada... ;-)
Sabe uma coisa, Luísa? gostei e ri-me com este texto... ah, já agora e se bem pergunto: quando começam a ser pós-balzaquianas? ;-)))

p.s. - menina Ana V., essa do produto fácil de manusear e certificados... humprfftt!

manuel menezes disse...

Não são só os homens a comprar e só as mulheres a vender: está tudo misturado, todos compram e todos vendem, ainda que nem sempre por via de dispendiosas casas comericiais (a cada um a sua estratégia). O que creio não está misturado, por regra, é quem faz a escolha, por muito que se (não) gaste: é a mulher que escolhe...

cristina ribeiro disse...

Vale estarmos num tempo em que mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo. E sabermos, e podermos, agir em conformidade, Luísa :)
Uns e outros :D

Luísa disse...

Claro, Mike. Single men are always welcome… ;-D
P.S.: A era pós-balzaquinana deveria iniciar-se com o final da década dos trinta. Mas a actual juventude da mulher de quarenta, de cinquenta ( ;-D ), etc., etc., leva-me a pensar que talvez tenha havido uma deslocação de parâmetros e só se inicie muito mais tarde. Eu própria autodesignei-me pós-balzaquiana por razões meramente formais. ;-)))))

Manuel, essa de que a mulher é que escolhe daria que rir (ou que chorar) a muitas amigas minhas, que mais não fazem do que queixar-se da «pobreza» do mercado. Escolher entre uma opção e a mesma não é bem uma escolha, dirão elas… como escolher entre nenhuma opção. ;-D

Isso é verdade, Cristina. Estes últimos – e tenebrosos – tempos têm tido, pelo menos, a vantagem de nos ensinar a topar um mentiroso sem que ele precise, sequer, de abrir a boca. ;-D

Assin.: Luísa







Agora também no Corta-fitas.





Com os meus agradecimentos: