Nocturno

Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

Viro a página...

... mas não fecho o caderno...

Olhares cruzados...

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... por sobre os campanários da Igreja de São Cristóvão.

Em fundo...

Estampas: IV. Fiesta en el Pueblo de F. Moreno Torroba.

Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Arejamentos

«-Ora a idade! A idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.
- Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos anos, a mulher parece ter a idade que tem».
(Júlio Dinis, Uma família inglesa).

Por «quarenta e tantos anos» entenda-se, naturalmente, quarenta anos mais quarenta. O século e meio que nos separa da era dinisina trouxe à mulher, entre outros relevantes benefícios, o de «ter a idade que parece ter» - ou de conseguir manipular eficazmente os sinais do tempo - até muito para além das suas quarta e quinta décadas. Mas é verdade que estou a reler Júlio Dinis. Um autor que nunca me seduziu, mas de cuja obra optimista senti o apelo nesta quadra sombria que vivemos, de empobrecimentos vários, económicos e morais. De repente, apeteceu-me percorrer o Portugal das aldeias que Júlio Dinis desenha com a «pena molhada no ideal» (segundo palavras de Eça); apeteceu-me vibrar, nesse percurso, com o entusiasmo regenerador de um país que, no terceiro quartel oitocentista, conheceu o desenvolvimento e o progresso, depois de um período negro de lutas civis; apeteceu-me, enfim, ler histórias em que tudo está bem porque acaba bem. Mesmo se não consigo identificar-me com as suas heroínas; mesmo se descubro nelas como a virtude feminina pode ser tão... tão... aborrecida?...

Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

Reflexões náuticas...

(Na Rua da Cruz de Santa Apolónia…)
Encerrada «a minha vida antes» e iniciada «a minha vida depois» - há factos da vida que rasgam semelhantes fronteiras – aí estou, redefinindo rotinas, recriando hábitos, procurando estabelecer a normalidade num quotidiano que, de repente, derivou, escapando a todos os planos e expectativas. Tenho, nestes trabalhos, descurado alguns dos entretenimentos que mais aprecio, como as minhas navegações diárias pela blogosfera. Mas estou ansiosa por recuperar a regularidade nessa rota. Será um bom sinal.

Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

No Castelo...

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Em fundo...

Estampas: VI. la Boda de F. Moreno Torroba.

Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

Fotonovela: segundo episódio...

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Nas Janelas Verdes, em demanda de um chá e de um «tête à tête» com o rio…


E a propósito: «Grácil, aparentemente humilde, é esta designação: Janelas Verdes. Uma evocação fugaz do século XVII, uma reminiscência vaga do século de Pombal. Janelas Verdes – por quê? Talvez pelas varandas do que foi o seiscentista Palácio Alvor, e, de há meio século, é o Museu de Arte Antiga. E lá estão, ainda, as janelas verdes, de varões grossos, numa fileira simétrica corrida, dominando os portais armoriados.
[…]
As Janelas Verdes – têm, assim, ressonância lisboeta. Resignada ao urbanismo, esta póvoa nobre e conventual – aceitou o miradouro da Rocha dos Condes de Óbidos e Sabugal, e, mais tarde, o Chafariz, de formosa expressão monumental.
[…]
Nesta Lisboa alucinante no pitoresco das ruas, que cheiram a rosmaninho, o sítio das Janelas Verdes é um Passo de procissão que parou um instantinho a namorar o mar.»
(Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa)

Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

Os meus espaços de eleição...

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Janelas Verdes (Museu de Arte Antiga)...

Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

Reflexões em pé (de guerra)…

(No Parque das Nações...)

Os brasileiros chamam-lhe, salvo erro, «orgulho besta». O adjectivo é devido, porque a estupidez revela-se em toda a linha de manifestação desta terrível forma de sentimento. Também sou orgulhosa – quem o não é? – e também me custa dar o braço a torcer. Mas há um ponto de sufocação, de ânsia por uma aproximação, uma explicação ou um passo em frente, que me derrota invariavelmente os «orgulhos bestas», por inexpugnável que pareça a fortaleza em que se barricaram, num prazo que nunca ultrapassa os dois dias. É, deduzo, virtude da minha condição feminina. Estou, de resto, pronta a admitir que, mais do que a expressão de uma índole conciliadora, esteja em causa a propensão da mulher para verbalizar os seus estados de alma e esvaziar em jactos de palavras os copos de águas turvas que vai enchendo gota a gota. O certo é que consigo quebrar o silêncio e pedir - como peço - desculpa. Razão por que não conto morrer de estupidez. Porque o «orgulho besta» é dos tais que recusa, sem um estremecimento de dúvida, o amor, a compreensão, a mão estendida, com risco que seja para a felicidade do orgulhoso e até para a própria vida.

Domingo, 24 de Outubro de 2010

No Castelo...

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Em fundo...

Tristesse de Francis Kleynjans.

Sábado, 23 de Outubro de 2010

Achegas explicativas sobre a guerra dos sexos, para instrução – e recruta - de uma adolescente (1)

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(Da Igreja de Santa Engrácia...)


«Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar tem oito dias de alienação moral. O espírito anda-lhe à solta, e um hábil caçador apanha-lho, e depois… como sabes do teu Genuense, a alma é uma substância acomodada para governar o corpo. Pilhada a alma, o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, à mercê das ondas». (Camilo Castelo Branco, Cenas da Foz).

Nota: «Respondi» a Balzac, mas não «respondo» a Camilo. Camilo não merece que comente duramente as suas provocações, porque tem arte(s) de me fazer rir e dispor muito bem!

Reflexões de banco de beira-rio...

Apesar deste meu desinteresse (pontual?) pela nossa pequena política, pela trica partidária, pelo comentário dos media, pelo escândalo do tabu «heterodoxamente» desfeito… - (quero, doravante, formar a minha vontade em factos e em resultados, sem a pressão das mil e uma opiniões debitadas pelo resto do mundo) - vou acompanhando sumariamente a evolução do país pelo mesmo método por que acompanho o desenvolvimento da high life planetária, que é lendo uma Hola por ano. No caso do país, as coisas acontecem com uma aceleração que é estranha ao pachorrento, conquanto festivo, jet-set, mas, ainda assim, a um ritmo de conforto que não escapa, nos seus detalhes, a um noticiário semanal e, nas linhas gerais, a um mensal. E o balanço que faço de uma «rentrée», que, na sua improdutividade, se mantém «rentrée» desde Setembro, é que me parece, a mim, que o país tem andado a lavrar – talvez deliberadamente - num equívoco sobre artigos definidos e indefinidos, que poderá revelar-se-lhe fatal: a Europa, os mercados e as agências de rating só querem, realmente, que Portugal aprove UM orçamento; é o governo que faz questão de que se aprove O orçamento.

Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

Fotonovela: primeiro episódio...

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Palmilhando a beira-rio...

Em fundo...

Brad Mehldau com River Man.

Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Ângulos: vilas operárias da Graça...

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(...Vila Berta).

A minha heroína

Era – e presumo que ainda seja - educadora de infância. Estava na aula com as suas crianças, quando irrompeu portas adentro um homem armado de revólver, má catadura e evidente desconexão mental, que as sequestrou, a ela e à pequenada, em nome de não sei que insanas pretensões. A escola foi imediatamente cercada pelas forças especiais e pelos negociadores da ordem. O calvário, ainda assim, durou uma infinidade de horas, creio que dias, porque o homem se escudava nas ameaças contra a vida dos reféns. A mulher foi autorizada a sair, para intermediar as conversações sobre a alimentação do grupo e a libertação do homem, mas abreviou a saída. E mantendo-se junto dos seus pupilos, tratou de organizar mil brincadeiras, simulações e teatrinhos (o homem representando as figuras familiares, inscritas na «mitologia» infantil, do lobo mau, do dragão ou do gigante) que os distraíssem e divertissem, mas, sobretudo, alheassem do drama que protagonizavam. Avisada, a páginas tantas, da iminência do ataque final, inventou um jogo de tartarugas, que conduziu a miudagem para debaixo das mesas, pondo-a ao abrigo de eventuais tiroteios e balas perdidas. E a incursão das forças especiais - que, em segundos, neutralizaram o agressor – encerrou, com um desenlace feliz, um caso que custara a tal infinidade de horas (dias!) de tensão, de medo, de angústias e raivas aos pais das crianças, aos familiares, aos amigos, ao mundo inteiro que as acompanhara pelos noticiários. Só para elas, e graças à sua educadora, tinham sido horas de puro entretenimento; horas que lhes não deixavam nenhuma dessas marcas que os grandes sustos costumam imprimir na consciência, para tormenta futura. Foi em França, há meia dúzia de anos; ou num tempo de que os novos padrões de sobrevivência já tinham erradicado os valores inspiradores do heroísmo. A educadora de infância foi heroína num tempo adverso à condição; é a minha heroína. Não lhe recordo o nome, nem houve pesquisa na net que mo desvendasse, mas o seu exemplo de generosidade, de sangue-frio e de ousadia criativa perduram na minha e espero que noutras memórias. Resta-nos, aos que nos lembramos, passar palavra aos que vierem a seguir a nós. Porque há nomes e gestos que, porque não entram na História dos poderosos, têm de entrar na Lenda dos bravos.

Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

Parque das Nações...

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Em fundo...

James Taylor com Wichita Lineman.

Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Já está!

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Parabéns ao Chile e aos seus mineiros por uma operação que, em todas as frentes, foi um exemplo de confiança, de congregação de esforços, de organização e de eficiência, e que, por isso, não conheceu sobressaltos e ainda reduziu para metade os prazos previstos.

Em fundo...

Pat Metheny Group com The Falcon.

Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

A corte, a mulher, o marido e o sonho (ou resposta de uma pós-balzaquiana a uma provocação)

Un jeune homme pauvre peut seul savoir ce qu’une passion côute en voitures, en gants, en habits, linge, etc. Si l’amour reste un peu trop de temps platonique, il devient ruineux. (Balzac, La Peau de chagrin).

A perspectiva de Balzac dos custos de um namoro na sua primeira fase é deliciosamente reveladora. Um homem que corteja é um vendedor, e quanto mais desinteressada se lhe afigura a cliente, maior a tentação de adoptar as estratégias sofisticadas e dispendiosas a que as casas comerciais, os prestadores de serviços e particularmente os bancos recorrem para escoar os seus produtos. Na circunstância, o produto é o próprio homem e o seu escoamento consumado no momento em que a cliente cede à troca do platonismo – ou da verborreia promocional – pela experimentação ou teste. Esta segunda fase implicava, no passado, um compromisso solene de compra, razão por que a bolsa do cortejador podia então folgar. Hoje, não há compromissos de compra, mas também é duvidoso que haja verdadeiras intenções de venda. Hoje, é frequente que a promoção vise apenas a colocação do produto num mercado aberto e consumista, em que a alta rotação permite apreciáveis contenções de despesas. De uma maneira ou de outra, um homem que corteja é um homem que mente. E é por isso que, quando a mulher abre os olhos, finda a campanha e contratada a aquisição, tem, geralmente, alguns motivos para pasmar. E pasmar de um pasmo que nem sempre é feliz: em matéria amorosa, nenhum produto vem munido de certificado de qualidade ou prazo de garantia. Restam à mulher, a que a emancipação descobriu os segredos do negócio, duas opções: ou deitar fora o produto, com o encargo pesado de muitas mágoas; ou servir-se das suas potencialidades, quando o balanço demonstra que compensam os defeitos. Em qualquer caso, não lhe convém descurar a panaceia que é gozar os romantismos «démodés» no paraíso dos sonhos, onde é sabido que as coisas reais, incluindo maridos (bons ou maus), não têm direito de entrada.

Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

Os meus espaços de eleição...

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Santa Clara...


It is very strange, this domination of our intellect by our digestive organs. We cannot work, we cannot think, unless our stomach wills so. It dictates to us our emotions, our passions. After eggs and bacon it says, "Work!" After beefsteak and porter, it says, "Sleep!" After a cup of tea (two spoonfuls for each cup, and don't let it stand for more than three minutes), it says to the brain, "Now rise, and show your strength. Be eloquent, and deep, and tender; see, with a clear eye, into nature, and into life: spread your white wings of quivering thought, and soar, a god-like spirit, over the whirling world beneath you, up through long lanes of flaming stars to the gates of eternity!" (Jerome K. Jerome, Three Men in a Boat).

Domingo, 10 de Outubro de 2010

Ângulos: as ameias da Sé...

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(... da Rua Cruzes da Sé e do Campo das Cebolas).

Reflexões de banco de jardim...

(Nos Jardins da Gulbenkian...)

Há dias, pessoa anónima comentou um texto que deixei noutra sede com as palavras: «não gosto da sua escrita». Lamento o extravio desse comentário (de que apenas tomei conhecimento por email), porque teria podido responder-lhe: «eu também não». Ninguém, em causa própria, é fiável nos seus juízos, mas é verdade que pressinto, na minha escrita, uma complexidade, um enrolamento de raciocínio e um «rebuscamento» de forma, que nunca, provavelmente, fizeram moda, e são claramente postergados pelos cânones vigentes. Mas já desisti de lutar por uma simplicidade, que me seduz, mas só me embaraçaria o prazer. É que o meu prazer na escrita não é, realmente, a busca ou a cultura de uma estética literária. É-o, sim, comunicar reflectidamente; expor uma ideia ou transmitir um desabafo, com tempo para trabalhar subtilezas de ironia ou de provocação. E é-o também ginasticar o espírito na contínua aprendizagem de uma língua, a minha língua. Aprendizagem que me sugere um exercício de geometria, de que conto que extraia algum benefício esta cabeça mal assente em estruturas demasiado assimétricas.

Em fundo...

Giovanni Palombo com Le Parole Sono Altrove.

Sábado, 9 de Outubro de 2010

Teorizando sobre bichas...

Tenho, naturalmente, a minha experiência de bichas. E porque não gosto de esperar - como presumo que ninguém goste - não posso considerá-la uma experiência interessante. A vida, porém, nem sempre contemporiza com os nossos interesses, e decidiu alargar-me a experiência a âmbitos diversos do tráfego automóvel e da esporádica renovação de BI’s e passaportes. Eis-me, portanto, obrigada a pontuar em várias bichas. Resta-me optar por uma de duas atitudes: ou embezerrar na impaciência e no pessimismo; ou tentar extrair da conjuntura algum proveito. Esta segunda opção é, sem dúvida, a mais inteligente, mas requer uma análise prévia do fenómeno, incluindo a sua tipificação – porque bichas há muitas… - e a definição dos paliativos adequados. Ataquemos então o problema. Quer assumam o formato de fila, quer de amontoado de gente ordenada por número de senha, as bicham encaixam, invariavelmente, em dois tipos fundamentais: as bichas de grande mobilidade e as bichas de pequena mobilidade. As primeiras avançam rapidamente e não permitem o desenvolvimento de outra actividade que não seja a atenção ao seu movimento. Consolam-nos, porém, com a fé num despacho breve (mesmo quando a segunda condição de brevidade, que é a reduzida dimensão da bicha que nos antecede, não se verifica). As segundas não avançam, ou avançam imperceptivelmente, e não há fé que resista ao seu ritmo (mesmo quando detemos posições dianteiras). São, receio, as bichas que me estão reservadas. É certo que permitem desenvolver actividades múltiplas, desde a leitura de livros e jornais, até à observação do meio ambiente e, designadamente, das pessoas que connosco aguardam a vez e das que as atendem (se é caso de atendimento). Uma bicha de pequena mobilidade é um cadinho de emoções. Raros são os elementos que se previnem com o que possa alheá-los da envolvente. De um modo geral, todos contam os minutos que passam. E há os que gemem e lastimam o tempo perdido; há os que se insurgem contra a criatura, a instituição, o governo, o país, o continente, o planeta, a galáxia ou o universo responsável pela lentidão das coisas; há os que andam para trás e para a frente, ao jeito da fera enjaulada; há os que procuram, com olhos ansiosos, cumplicidades para o crescendo da sua irritação; há os que vão reclamar; há os que não vão, conformados com a inelutável decadência civilizacional; há os que, à coca dos «xicos-espertos», que abundam em semelhantes quadros, se assanham contra o pobre que só quer uma informação; há os que aproveitam o ajuntamento para soltar uma língua que a solidão costuma emparedar-lhes entre os dentes; há os que trocam animados testemunhos de desgraça; há os que rompem o bruaá, feito de tensão e queixas surdas, com altissonantes respostas aos telemóveis… Pois não é que ainda não entrei na bicha e já estou a achar graça!

Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

Concepção ou execução?

A temporada das maquetas arrancou de novo. Reabastecemo-nos de cartões e colas, e já encetámos as primeiras manobras de construção, agora em dimensões praticamente microscópicas, o que apura os desafios da actividade. Foi, aliás, a propósito desta, que me veio à memória o par de avaliações de desempenho «formais» de que fui alvo em empregos passados. Nenhuma delas realçou o meu poder imaginativo – aquele que sempre tomei pela minha força -, mas apenas a capacidade de execução – a minha fraqueza. E eu não gostei, na altura, de ser apreciada como mera – ainda que boa – executante. É certo que, por razões de ordem diversa, nenhuma dessas avaliações foi realizada por pessoa que comigo tivesse uma relação empática. Quando muito, neutra. O que me tenta a considerar a hipótese de injustiça ou parcialidade «negativa» no veredicto. Não posso, no entanto, ignorar os generosos encómios com que tais figuras, distantes e vagamente hostis, o abrilhantaram. Como não posso, tão pouco, escamotear a fatalidade, sobre que li ou me falaram um dia, de que a pujança inventiva do homem começa a decair, como outras pujanças, relativamente cedo na vida, algures no decurso da terceira ou quarta década. Resta-me, portanto, procurar algum consolo na especulação sobre o dilema - que alço imediatamente ao patamar dos dilemas fundamentais - de saber se é mais importante conceber, se executar. O acto de concepção beneficia de uma preferência generalizada, decerto porque constitui um exercício livre e puramente espiritual, que permite a aproximação da criatura à imagem do Criador. Mas a mesma espiritualidade o transforma num acto ocioso, incompleto e inútil, se não for transposto para o mundo das coisas sensíveis por um acto de execução. Acresce que a execução envolve uma miríade de pequenas e grandes concepções, integrantes do processo de adaptação da ideia à realidade. Em todos os campos, nas artes, nas ciências, na gestão, as inspirações valem na medida em que são passíveis de uma expressão concreta, de uma comprovação prática, de uma aplicação eficiente no terreno... Terei de me alongar na argumentação ou já compreendem por que, nesta minha quinta e resignada década, sinto orgulho quando consigo pôr uma parede de meio por dois centímetros de pé?

Em fundo...

Jethro Tull com Wond'Ring Aloud.

Terça-feira, 5 de Outubro de 2010

Ericeira...

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... É sempre interessante especular sobre como teria sido, se nada disto tivesse acontecido…

Assin.: Luísa







Agora também no Corta-fitas.





Com os meus agradecimentos: