Nocturno

21 de Novembro de 2009

Ensaio com quadradinhos - 2

Um Bom Fim-de-Semana *


Primeiro capítulo

(Continua já, depois de um pequeno intervalo...)

20 de Novembro de 2009

A Norte e a Sul...

... da Costa do Castelo:



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19 de Novembro de 2009

Coisas da face oculta

A detecção recente de água na Lua provocou algum sobressalto na roda de uns amigos que tenho, que fazem questão de não comer gato por lebre; e que, por isso, entram logo a especular sobre todo o processo de que estranhem ou não conheçam o desenvolvimento, lançando para a mesa as mais variadas teses, incluindo «conspirativas». Compreendo que quem tenha fé na ciência e nas capacidades sobre-humanas da tecnologia norte-americana se desconcerte quando só quarenta anos – quarenta! – depois da alunagem, se descobre a existência de água no planeta. Os navegadores portugueses – argumento inevitável - cujos feitos na exploração de um mundo igualmente desconhecido tiveram suporte em simples observações de estrelas, em cálculos de cabeça e em precaríssimas «cascas de noz», não deixaram para o dia seguinte o inventário das existências nas terras achadas, nem, tão pouco, a sua rentabilização. Compreendo que, nesta comparação, quarenta anos de ignorância sobre as potencialidades do nosso satélite possam alimentar dúvidas sobre a veracidade do tal passo pequeno para o homem e gigante para a humanidade, que testemunhámos televisivamente em 69. Mas não as alimentam em mim. Encontro uma miríade de razões para quarenta anos de interregno. De que a menos relevante ainda é a de que a água se escondia na face oculta – eternamente oculta – da Lua, cujo estudo (como o de todas as «faces ocultas») tende para o relaxe. A grande razão, no meu particular entendimento, está no pouco interesse que essa esfera rochosa tem para os destinos da nossa espécie. É um planeta secundário, insignificante, vazio e árido; gira em torno de uma Terra já demasiado encalhada nos seus próprios círculos viciosos; e não constitui alternativa de fuga, nem ponto privilegiadamente colocado para a penetração no espaço infinito. Invistamos, portanto, em Marte e noutras distâncias. É que quarenta anos não revelaram só água na «noite» lunar. Quarenta anos banalizaram o passo de gigante, reduzindo-o à dimensão do passo do indivíduo comum. E roubaram à Lua protagonismo científico, felizmente sem prejuízo para o seu papel maior de inspiradora de poetas e de agente dos insondáveis enigmas da feminilidade. Partamos então à conquista de Marte – onde, porque não tem face oculta, sabemos, desde há séculos, que há muitas e boas águas…

18 de Novembro de 2009

Diário gráfico




Passe le temps béni de ma jeunesse,
Pour oublier je me verse du vin.
Il est amer? C'est ainsi qu'il me plaît,
Cette amertume est le gôut de ma vie.

Omar Khayyam

Em fundo...



Lyle Mays com Close to Home.

17 de Novembro de 2009

Na Rua do Norte...

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16 de Novembro de 2009

O muro

Não são os «maus» muros construídos por esse mundo fora que tenho em mira, ainda que reconheça que nenhum muro tem no presente, ou teve no passado, um papel pacífico. Até a função legítima de defesa tem o contraponto amargo de um possível ataque, actuando, portanto, pela separação de pessoas com consciências diferentemente intencionadas. Não tenho, em todo o caso, grande experiência com muros, para além daqueles que integram o conceito incontroverso de paredes. Mas há um muro que me traz boas recordações, que associo a alegria, emoção, expectativa e aventura. É o muro que se intercala entre o quintal da casa que foi dos meus avós e os quintais dos prédios fronteiros. Por sobre este muro, costumavam, há umas quantas décadas, espreitar as caras risonhas da miudagem da vizinhança, que o saltava e se nos juntava num conjunto de brincadeiras de tremendo consumo energético, incluindo as clássicas «apanhadas» e «escondidas», exercícios vários de equilibrismo e de escalada, e expedições clandestinas ao galinheiro da porteira e à própria rua, através de um túnel sinistro que a ligava às traseiras. E é porque existia semelhante muro, que os adultos temiam e contra cujos riscos nos intimavam com ameaças e repreensões, que as reuniões do nosso «clube dos dez» (que, às vezes, era de onze ou doze) tinham um travo a coisa semiproibida e, por isso, duplamente apetecida. Depois, o clube contava ainda com a sociedade palpitante do que foi, nos meus tenros anos, o melhor amigo: chamava-se Dik e entroncava na espécie dos rafeiros. O Dik autorizava-me o que não autorizava a mais ninguém (salvo à dona, a porteira). E orgulha-me pensar que não foi uma conquista facilitada por mimos ou biscoitos, mas obtida com a força dos olhares que cruzávamos, cheios de uma compreensão, de uma cumplicidade e de uma lealdade que nunca voltei a encontrar em criatura viva, sobretudo humana. O clube extinguiu-se naturalmente, quando cada membro seguiu o seu rumo - o do Dik apontando ao paraíso dos cachorros. Ficou o muro, que hoje mal reconheço, fechando o espaço de um quintal que trocou a amplidão e a magia por uns canteiros de hortaliças. Mas que, apesar de muro, guarda memórias saudosíssimas da minha infância – a par de uma série de outros muros que então fiz (e ainda conservo) com os tijolos dos meus Legos.

15 de Novembro de 2009

Em fundo...



Erin Bode com Chasing After You.

Ensaio com quadradinhos - 1 (continuação)

Uma Aventura


Último capítulo

14 de Novembro de 2009

Intervalo

No Largo Trindade Coelho...

Ensaio com quadradinhos - 1

Uma Aventura


Primeiro capítulo:


(Continua já, depois de um pequeno intervalo...)

13 de Novembro de 2009

Amigos, amigos, negócios à parte...

Já fui testemunha de várias tentativas de intersecção dos planos da amizade e do negócio, e tenderia, a partir dessa observação, a corroborar o velho ditado que serve de título a este singelo post. Todas elas, com efeito, se saldaram por rotundos fracassos, ora falindo o negócio, ora falindo a amizade, ora – desenlace mais frequente - falindo ambos. Por isso, aderi sempre, apesar da sua frieza, às orientações das multinacionais em que trabalhei, que eram de uma oposição decidida ao recrutamento de familiares e amigos. Os argumentos são conhecidos: a proximidade afectiva é prejudicial à gestão, porque contamina o decisor com sentimentos que transtornam a sua isenção na aplicação dos critérios da produtividade e da competência, os verdadeiros pilares do sucesso de qualquer negócio; a amizade não cria riqueza (salvo espiritual); e a criação de riqueza é, ela própria, um processo exigente, esforçado e objectivo, que não se compadece com as devoções da amizade. Posto isto, foi com natural estranheza que descobri que aquilo que, em sucessivas décadas de atenta aprendizagem pessoal e profissional, fui interiorizando como regra elementar do jogo, não funciona no cenário político-económico português. Aí, pelo contrário, a amizade e o negócio parecem conjugar na perfeição. E eu desconfio de que é porque, aí, os planos da amizade e do negócio não são dois, mas um único e mesmo plano. Ou seja, o negócio público português é, na realidade, um negócio de amizades ou de «amiguismos», cujo objectivo não é criar riqueza, mas enriquecer patrimónios; é um negócio de favores e de influências, que visa, não o crescimento de uma economia, mas o saque de uma população; é um negócio de solidariedades firmes, não raro subtis ou meio ocultas, que se articulam na distribuição, entre si, de cargos e prebendas, e se apoiam mutuamente na neutralização das «contrariedades» (as quais incluíam, até há pouco, o quarto poder da comunicação social e apenas incluem, presentemente, o que sobra de um terceiro poder, o judicial, minado como um queijo suíço). E tudo aponta para que só assim, negociando amizades, se consiga ser alguém em Portugal. Dir-se-ia então ter chegado o momento de – como portuguesa que sou - repensar as ilações que tirei da minha limitada experiência de vida; de refutar veementemente o velho ditado e fazer confiança nas virtudes ou nos «virtuosismos» do espírito gregário em versão latina; e de entabular, enfim, novas e profícuas amizades no círculo social a que chamam de «centrão». Não fosse o caso de ser uma criatura que o tempo fez misantropa e estupidamente desprovida de ambições, e dava, já amanhã, um saltito ao Largo do Rato.

Em fundo...



James Taylor com You’ve Got a Friend.

12 de Novembro de 2009

E a causa da recuperação da Capela de Santo Amaro...

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Em que estamos?

Em fundo...

Concerto para piano de Grieg.

11 de Novembro de 2009

Diário gráfico 2

(Não esquecer o clique sobre a imagem...)

Diário gráfico 1




Sopa afrodisíaca de Norman Douglas

Ingredientes (4 pessoas):
- 500 gr. de feijão encarnado
- Osso de presunto
- 1 ramo de salsa
- 1 colher de café de açafrão das Índias
- Sal q.b.
- Mão-cheia de arroz carolino
- Queijo parmesão ralado

Coza os feijões em água salgada com o osso de presunto. Adicione um pouco de salsa picada e uma pitada de açafrão. Quando os feijões estiverem bem cozidos, passe-os por uma peneira, não esquecendo de pôr de parte uns poucos para mais tarde serem acrescentados à sopa. Coloque novamente o caldo ao lume e, quando levantar fervura, adicione uma mão-cheia de arroz e os feijões que sobraram. Quando o arroz estiver cozido, sirva a sopa com queijo parmesão gratinado.

Altamente recomendado.

(Em Receitas Literárias, Vol. III)

9 de Novembro de 2009

Noite e dia

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As aulas de guitarra coincidem, no corrente ano lectivo, com um horário tardio, pelo que as minhas deambulações, enquanto espero, se têm feito por uma Lisboa mergulhada na noite. E que mergulho ela faz! Dir-se-ia que desce às camadas oceânicas mais profundas, onde até os peixes andam munidos de «lanternas» próprias ou desenvolvem visões de raio-X, capazes de vencer a opacidade do habitat. Faço, portanto, minhas as palavras da Ana Cláudia Vicente. E com alguma apreensão, não só pelo motivo sério da segurança, como pelo motivo frívolo do meu apetite fotográfico. Lisboa é uma cidade escandalosamente mal iluminada no período nocturno e são vastas as zonas centrais que ficam invisíveis num negrume de breu, como se correspondessem a descampados. É verdade que, na condição de «mulher» muito enrugada, Lisboa tira partido das sombras e a parte velha sai remoçada depois das seis. Mas, em contrapartida, oferece escasso material à contemplação e ao registo. O meu «caixote», que não dispõe – que eu saiba – de filtros adequados à penetração nas escuridões que se instalam ao virar das esquinas, anda frustradíssimo, porque, em cada dez disparos, capta nove «não-imagens» ou rectângulos pretos, vagamente laivados – onde estava uma pessoa, uma árvore, um objecto ou um edifício - de uma mancha cor de antracite. Em tais circunstâncias, dou, naturalmente, por mim, nestes passeios pós-crepusculares, à espreita de focos de claridade com a avidez de quem procura uma luz ao fundo de um túnel. E já não é a primeira vez que me surpreendo a espiar interiores, por enquanto de estabelecimentos comerciais, brevemente de casas particulares. Na ansiosa busca de um alvo, perco o critério e movo-me pelo puro instinto da borboleta. Assim, se o Nocturno sofrer interrupções, não descartem a hipótese de que a borboleta se tenha «queimado» e esteja a pagar, atrás das grades, pelo crime de violação de privacidade.

Em fundo...

Frank Sinatra com Night and Day.

8 de Novembro de 2009

Diário gráfico - 1.ª avaliação semestral

(Clicar para aumentar)

7 de Novembro de 2009

Na Rua da Misericórdia...

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Em fundo...

Al Di Meola com Orange And Blue.

6 de Novembro de 2009

Diário gráfico


O medo

O que mais me impressionou no muito que tenho ouvido debater sobre a gripe A foi o apelo de um médico para que se combatesse o medo. Não é a primeira vez que oiço a médicos exortações deste tipo. E embora não saiba se há razões clínicas que as justifiquem, sou-lhes particularmente sensível, porque tenho a percepção de que o medo é, de facto, o sentimento dominante desde há um par de décadas. Sob as maleitas sofisticadamente designadas por «stress» ou «ansiedade», votadas ao lugar cimeiro no rol das doenças do século XXI, está, na minha convicção, esse medo, um medo difuso, por vezes incaracterístico, que se vai transferindo, mórbida e destrutivamente, de umas causas para outras, desde a economia, a saúde e o conforto familiares, à segurança, ao ambiente e ao futuro dos filhos, das espécies, do planeta. Temos medo de tudo um pouco: da pobreza que nos espreita, do desemprego que nos ameaça, do corpo que nos dói, da política que nos esbulha, das estradas que matam e dos aviões que caem, da banditagem na cidade e do terrorismo nas terras vizinhas, do calor, do frio, da chuva, do vento, das ondas e das placas tectónicas... Mas porquê tanto medo? Para mim, a resposta dá pelo nome de informação. Não quer isto dizer que subcreva a tese de que a felicidade e a ignorância são as duas faces da mesma moeda - ainda que seja unânime o reconhecimento de que a felicidade requer alguma dose de alienação. Quer dizer, sim, que tenho as maiores reservas quanto à forma por que a informação nos é transmitida (ou, num certo sentido, quanto à sua qualidade). Invoco, a título de exemplo, os «media»: não só regateiam as boas notícias – lamento que, no meu conceito, a assinatura do tratado de Lisboa pelo presidente checo não entronque na categoria – como arremessam contra nós as suas canhonadas envoltas numa fumaça de sensacionalismo catastrófico, densa e pesada como o mais denso e pesado dos nevoeiros, cujas sombras negras logo sugerem vultos de monstros, esqueletos e fantasmas. Não há sobriedade, nem delicadeza na exposição dos factos. Há espectáculo. E o espectáculo exacerba as emoções humanas como nenhuma realidade. A vida, minada por este continuum de crime e desgraça, vive-se em permanente sobressalto. E já os dias luminosos perdem o brilho na certeza da sua excepcionalidade. Quanto a mim, entrei em cruzada contra o medo. E vou vencê-lo! Se não conseguir enfrentá-lo com coragem, trato de lhe fugir a sete pés, pois, pelos meus cálculos, o medo do medo deve anular o medo...

5 de Novembro de 2009

A Lua, do Carmo...

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Em fundo...

Clair de Lune de Debussy.

4 de Novembro de 2009

Diário gráfico





[...]

Mais moi, sous chaque jour courbant plus bas ma tête,
Je passe, et, refroidi sous ce soleil joyeux,
Je m'en irai bientôt, au milieu de la fête,
Sans que rien manque au monde, immense et radieux !

(Victor Hugo, Le soleil s'est couché ce soir dans les nuées)

3 de Novembro de 2009

Mais coisas de família

Sabia que tinha um Avô republicano. Um Avô que, voluntária e briosamente, marchou pelos campos entrincheirados da Flandres, como abnegada e honestamente exerceu o poder concelhio no tempo da «outra senhora». O que não sabia - embora pareça ser a única que não reteve memória desse dado – é que também tive um Avô monárquico de fortíssimas convicções. Um Avô que, cumprindo o serviço militar na altura da implantação da República, recusou pronunciar o juramento de bandeira em prol do novo regime, sob o argumento de que, juramento, só fazia um e já o prestara perante o rei deposto; e que, por tal motivo, abalou para o Brasil, onde veio a conhecer a minha Avó e a conceber uma descendência nascida dos lados de lá e de cá do Atlântico em rigorosa alternância. Tenho reduzida informação sobre este meu Avô paterno, de que recordo, não obstante, a figura frágil, o bigode farfalhudo e a expressão bondosa e discretíssima. E tenho ideia de que protagonizava uma história – com o sabor fantasioso das lendas – familiarmente apontada como prova provada de que somos de uma estirpe pouco bafejada pela intuição para o negócio e votada, por conseguinte, a uma existência modesta. Rezava essa «lenda» que, durante a sua permanência no Brasil, o meu Avô teria sido sondado para a aquisição, por uma bagatela, de uns terrenos na zona então desinteressante e praticamente baldia de Copacabana, incluindo, segundo a mesma «lenda», a longa faixa arenosa. Mas a proposta não teria colhido a sua atenção, preferindo o meu Avô investir as economias na compra, em solo pátrio, de um pequeno estabelecimento comercial, onde, nas décadas subsequentes e até à sua reforma, foi dando largas à entranhada vocação para o manuseamento de drogas e a preparação de mezinhas, que o fizera, anos antes, licenciar-se na especialidade farmacêutica. Ainda me lembro de uns pós da sua criação, que aliviavam, milagrosamente, as minhas dores de barriga infantis. Uns pós que, naturalmente, não o enriqueceram a ele, nem nos enriqueceram a nós. Mas nos areais de Copacabana não teríamos, tão pouco, achado o pote de ouro, porque o destino das famílias, como o das pessoas, está escrito nas estrelas, o nosso sendo de «pobretes, mas alegretes». Estou absolutamente segura de que a opção milionária brasileira, tivesse o meu Avô apostado nela, teria imediatamente sucumbido à crise de 29.

2 de Novembro de 2009

Na Rua Augusta...

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Em fundo...

Bill Evans com B Minor Waltz (For Ellaine).

1 de Novembro de 2009

Cantinho de opinião

Na Rua do Carmo...

Os duelos na blogosfera travam-se com três armas: o argumento, o insulto e o reparo gramatical. O primeiro recomenda-se, porque confronta os oponentes em igualdade de condições. Os outros dois são mesquinhos e mesmo cobardes, porque fazem por apanhar a contraparte à traição. Mas, sobretudo, são obviamente deselegantes.

31 de Outubro de 2009

Coisas de família

Alguém se questionava, num texto interessantíssimo que reli há dias, se estaria, com o tempo, a ficar parecido com o seu pai. Há quem diga que é uma inevitabilidade; que a passagem dos anos aviva as linhas do código genético indelevelmente impresso no papel que somos, e que a experiência social apenas amarelece. «Blood is thicker than water», até no sentido do que primordialmente nos define, nos planos físico e moral. Pois eu, sobre o meu Pai, não me questiono. As parecenças são demasiado flagrantes. E se as nossas relações não foram pacíficas, nunca deixei de o sentir dentro de mim – e por isso, atrevo-me a acrescentar, de o compreender (embora não de o aceitar) como ninguém; e de ter consciência da injustiça que lhe fazia, ao insurgir-me contra a sua irascibilidade e o seu impulso dominador com iguais irascibilidade e impulso dominador, desvalorizando a sua sensibilidade, por vezes envergonhada, mas genuinamente atenta aos outros… contanto que próximos. Somos a mesma massa, literalmente falando, ou o mesmo mecanismo. Já sobre a minha Mãe, a questão não é líquida. Nunca dois temperamentos se revelaram tão distintos e imiscíveis. Razão por que o convívio tem sido liso como a superfície de um lago, evitando mergulhar nas águas fundas, onde enfrentaria riscos não compensados pela descoberta de afinidades. No entanto, curiosamente, há coisas em que julgo estar a aproximar-me dela. Diria que convergimos na direcção do seu pragmatismo básico, que sempre lhe amarrou os pés à terra, estreitando, paulatinamente, a veia do sonho e deslassando o nervo da afirmação pessoal. Noto, em mim, inequívocos sintomas daquela sua espécie de cedência comodista (ou medrosa) de tudo ou quase tudo por uma harmonia, aparente que seja, por um viver habitual e docemente; daquela sua resignação, que não é desiludida ou desalentada, mas religiosa - assentando, no caso dela, na fé num determinismo divino; partindo, no meu, da convicção afim de que os caminhos se escolhem (quando há escolha) na primeira metade da vida e são irreversíveis na segunda. Se calhar, é capaz de valer a pena tentar, um dia destes, mergulhar no lago, perturbar, ao de leve, a harmonia das suas águas paradas e procurar o nosso ponto de encontro… Embora esteja com medo (ou será comodismo?) de não o encontrar.

30 de Outubro de 2009

Diário gráfico


Tímido ensaio com cor. (......) E o cor-de-rosa da Patti.

Contributos para uma noção de consciência moral

«Voyez-vous, lorsqu’on a trop réussi sa vie,
On sent, - n’ayant rien fait, mon Dieu, de vraiment mal ! –
Mille petits dégoûts de soi, dont le total
Ne fait pas un remords mais une gêne obscure».


(Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac)

Em fundo...

Lloyd Cole com Man Enough.

28 de Outubro de 2009

No Largo de Santo António da Sé...

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Em fundo...

Nocturno no.1 de Chopin por Claudio Arrau.

27 de Outubro de 2009

XVIII Governo

O Governo lá tomou posse. O mesmo, no essencial, que há cinco anos orienta os destinos do país com convicções avulsas e competências menores. A comprová-lo, a circunstância do seu melhor ministro ser considerado, na comparação europeia, o pior da sua especialidade. A comprová-lo, também, a circunstância de Portugal ter descido em todas as escalas internacionais de aferição do grau de desenvolvimento e da qualidade da democracia - aqui, de novo, na comparação com países que conheceram e sofreram a crise, como nós. Deste Executivo espero exactamente o que esperava do anterior: o favorecimento de uma clientela própria, mal disfarçado sob um investimento pesado em projectos ditos dinamizadores da economia, mas ruinosos para o Estado e provavelmente redundantes, ou condenados ao futuro de uns quantos estádios de futebol edificados nos idos do Euro. Não espero mais. Quando se anuncia como grande prioridade a avaliação dos professores – como leio nas parangonas do Expresso – está tudo dito. Não se trata, evidentemente, de valorizar a Educação; não se trata de reforçar a autoridade docente; não se trata de aperfeiçoar os programas; não se trata de promover um ensino exigente; não se trata de dar conteúdo útil a um décimo segundo ano (agora inserido na escolaridade obrigatória), que pouco mais é do que um verbo-de-encher, destrutivo dos já precários hábitos de trabalho dos alunos; não se trata, em suma, de atacar a substância das coisas… Trata-se, sim, de avaliar os professores, uma questão meramente formal, altamente burocrática e condenada ao insucesso, cujo empolamento, no arranque de um segundo mandato, sugere a intenção de reatar uma guerra, de que apenas se perdeu a primeira batalha. Embora a provocação pareça contraditória com a entrega da pasta a uma personagem tida por apaziguadora, agita-se a luva, desperta-se o receio de que roce ou esbofeteie a face do professorado, inscreve-se o duelo no quadro das hipóteses, fomenta-se a especulação, mantém-se o processo em banho-maria – não vá faltar pretexto para alguma golpada política - e entretém-se o povo com este jogo de expectativas e «faits-divers», que o alheiam do jogo sério, aquele que revelaria, nas suas verdadeiras dimensão e gravidade, a situação do país e a inoperância governamental (para não falar na batota). Para além da avaliação dos professores e de um ou outro «caso» com que possam entulhar-se os «sulcos» da nossa vida pública, prevejo que a notícia seja controlada e escassa. E a «silly season» progressivamente alargada a todas as estações. De certo modo, não o lamento. Começo a preferir saber da descoberta de um cogumelo gigante em não sei que região pastoril, ou do sucesso do quiosque da tia Joaquina em não sei que capital de distrito, ou da sessão de degustação de vinhos em não sei que sociedade recreativa, ou do festival de doçaria de ali e da feira gastronómica de acolá, e deixar que «com pão e com bolos» tolamente me enganem, do que tomar consciência aguda da minha absoluta impotência democrática.

26 de Outubro de 2009

Diário gráfico












Il est une liqueur, au poëte plus chère,
Qui manquait à Virgile, et qu'adorait Voltaire ;
C'est toi, divin café, dont l'aimable liqueur
Sans altérer la tête épanouit le coeur.

[...]

(Jacques Delille, Le café)

25 de Outubro de 2009

Mudança da hora

Pensei que podia beneficiar, esta noite, de uma hora extra de descanso. Mas não. Deixei-me emaranhar nas pesquisas de um novo sistema de «postagem» de som, que me poupasse ao processo de conversão do formato MP4 para o MP3 e me facultasse a colocação no blogue de todas as «minhas» músicas – os programas até agora utilizados não aceitavam o «upload» de alguns ficheiros, sabe Deus porquê –, perdi a noção do tempo e recolhi quando batiam as seis. Sinto-me, portanto, vagamente entorpecida, pouco segura do soalho que piso e não dou conta da menor agitação de cariz neuronial. Mesmo assim, não tendo gozado os sessenta minutos adicionais de preguiça, acolhi com satisfação, como acolho sempre, a mudança da hora do Outono. E nem quero saber se importa, como dizem, um pernicioso acréscimo de gastos energéticos relativamente à alternativa (que seria manter o horário de Verão nas restantes estações). Para mim, há outras considerações a ter. E nada se me afigura tão contrário ao ritmo biológico humano – ou tão atentatório contra a natureza das coisas – como acordar pela manhã com noite escura e adormecer ao serão com dia claro. Como nada se me afigura menos aconchegante do que bater o Chiado ao fim da tarde sob a brasa zenital do astro-rei. O sol nocturno não faz sentido nas regiões meridionais que bordejam os trópicos: não é estimulante, não é inspirador, e propõe um convite irresistível à noitada, que, em países que já não têm, no clima, um amigo do trabalho, esmorece ainda mais o impulso produtivo e arruína a jornada laboral que segue. Ora vejam como, sob os efeitos de uma noitada, este meu «post» está desinspirado e resumidinho. É que nem com dois «espressos intensos»!…

24 de Outubro de 2009

Do Miradouro do Monte Agudo...

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Em fundo...

Ida Sand com Ventura Highway.

23 de Outubro de 2009

Diário gráfico









A rosa de há uma semana está a murchar. Por isso, ponho-a aqui, onde não murcha mais.

22 de Outubro de 2009

Fotografia e Arte

Vi, há dias, aqui questionado se a Fotografia é Arte. Tenho a mesma dúvida e admito que por pura ignorância do que por aí se cria na disciplina. Mas devo confessar que, ainda que o conhecimento abundasse, teria de superar, também, a minha extrema dificuldade em identificar Arte na produção «artística» ou «pictórica» do último meio século. Tenho algumas noções estéticas, mas o evidente corte com os cânones clássicos confunde-me e não consigo ver o «sublime» se não mo apontam a dedo. Acresce, no caso da Fotografia, que pode ser encarada como mera reprodução da natureza - como o era, é verdade, a Pintura de outros tempos, que contava, no entanto, com a valorização de uma mestria técnica só ao alcance de raras mãos. Esta minimização será, talvez, o motivo por que, por um tom inovador, vanguardista, chocante, exótico ou excêntrico, julgado essencial à consagração artística, se cometem excessos nos conteúdos e na forma, que não tocam a minha sensibilidade, me cegam ao talento e só reforçam cepticismos. A dúvida - que é, portanto, a de saber se há, e qual é, a fronteira da Arte na Fotografia - não significa que não tenha imenso prazer em ver fotografias de pessoas, de acontecimentos, de lugares ou do National Geographic: uma imagem vale por mil palavras. E não significa, tão pouco, que não haja fotografias que me deslumbram pela expressão e pela beleza do que captaram ou souberam realçar.

Adenda editorial: quanto a mim, não fotografo à procura de nenhum apuramento ou realização artísticos, mas por motivos infinitamente prosaicos. Não gosto de passear sozinha. Mas os factos da vida obrigam-me, em certos dias da semana, a umas horas de espera e recomendam-me que as preencha com caminhadas enérgicas. Ora sucede que, com o meu «caixote» disfarçado na mão, não sinto a solidão. Parece que levo comigo um segundo olhar, com que posso partilhar as surpresas e as emoções que Lisboa nos reserva ao dobrar de… algumas esquinas. É uma companhia silenciosa, mas atenta e compreensiva; tem as minhas preferências; marcha ao meu ritmo... Não é uma excelente companhia?

Em fundo...

Sara Tavares com Só d’Imagina.

21 de Outubro de 2009

Diário gráfico






No aprofundamento dos estudos «artísticos» há pouco iniciados, estreio a nova rubrica «Diário gráfico» desenhando esta singela homenagem ao meu fiel e muito querido «caixote».

(Nota: não inscrevi o nome da marca por naturais pruridos publicitários).

Assin.: Luísa


Agora juntando também um sopro fraco mas entusiasmado às Brisas, Nortadas e Furacões da Porta do Vento.


Com os meus agradecimentos:



- Carlos: Photobucket - Fugi e GJ: Photobucket; - Cristina: Photobucket ; - Si e Sizinha: Photobucket e Photobucket; - Luar: Photobucket ; - GJ: Photobucket