O que mais me impressionou no muito que tenho ouvido debater sobre a gripe A foi o apelo de um médico para que se combatesse o medo. Não é a primeira vez que oiço a médicos exortações deste tipo. E embora não saiba se há razões clínicas que as justifiquem, sou-lhes particularmente sensível, porque tenho a percepção de que o medo é, de facto, o sentimento dominante desde há um par de décadas. Sob as maleitas sofisticadamente designadas por «stress» ou «ansiedade», votadas ao lugar cimeiro no rol das doenças do século XXI, está, na minha convicção, esse medo, um medo difuso, por vezes incaracterístico, que se vai transferindo, mórbida e destrutivamente, de umas causas para outras, desde a economia, a saúde e o conforto familiares, à segurança, ao ambiente e ao futuro dos filhos, das espécies, do planeta. Temos medo de tudo um pouco: da pobreza que nos espreita, do desemprego que nos ameaça, do corpo que nos dói, da política que nos esbulha, das estradas que matam e dos aviões que caem, da banditagem na cidade e do terrorismo nas terras vizinhas, do calor, do frio, da chuva, do vento, das ondas e das placas tectónicas... Mas porquê tanto medo? Para mim, a resposta dá pelo nome de informação. Não quer isto dizer que subcreva a tese de que a felicidade e a ignorância são as duas faces da mesma moeda - ainda que seja unânime o reconhecimento de que a felicidade requer alguma dose de alienação. Quer dizer, sim, que tenho as maiores reservas quanto à forma por que a informação nos é transmitida (ou, num certo sentido, quanto à sua qualidade). Invoco, a título de exemplo, os «media»: não só regateiam as boas notícias – lamento que, no meu conceito, a assinatura do tratado de Lisboa pelo presidente checo não entronque na categoria – como arremessam contra nós as suas canhonadas envoltas numa fumaça de sensacionalismo catastrófico, densa e pesada como o mais denso e pesado dos nevoeiros, cujas sombras negras logo sugerem vultos de monstros, esqueletos e fantasmas. Não há sobriedade, nem delicadeza na exposição dos factos. Há espectáculo. E o espectáculo exacerba as emoções humanas como nenhuma realidade. A vida, minada por este continuum de crime e desgraça, vive-se em permanente sobressalto. E já os dias luminosos perdem o brilho na certeza da sua excepcionalidade. Quanto a mim, entrei em cruzada contra o medo. E vou vencê-lo! Se não conseguir enfrentá-lo com coragem, trato de lhe fugir a sete pés, pois, pelos meus cálculos, o medo do medo deve anular o medo...